04.11.1995

14/11/2011

Homens da kvutzá do Hanoar Hatzioni em passeio pelo Vale do Rio Jordão.

16 anos, muito sangue e pouca melhora nas relações entre Israel e seus vizinhos se passaram desde a fatídica noite daquele 04 de novembro.

Após uma massiva manifestação pela paz na Praça Malchei Israel (hoje chamada de Praça Rabin), o Primeiro Ministro Ytzhak Rabin Z”L e o Presidente Shimon Peres se encaminhavam para os automóveis oficiais. A canção que fechara o ato justamente se chamava “Shir LaShalom” (“Cântico da Paz”). Peres desceu rapidamente do palanque e entrou no veículo. Já o Chefe de Governo, cumprimentado efusivamente por muitos dos presentes, demorou um pouco mais para encaminhar-se rumo ao carro. Assim que chegou à calçada, tragicamente, soltou seu último suspiro. Ygal Amir, israelense extremista contrário ao processo de paz em conduzido pelo governo, disparou contra as costas de Rabin, deixando todo o país atordoado com o desaparecimento súbito de seu maior líder.

Os últimos dias foram repletos de atos em homenagem ao aniversário de morte (segundo o calendário judaico) de Rabin. O grupo do Shnat do Hanoar Hatzioni esteve presente em dois deles.

Todos os anos, a juventude de Deganya organiza a cerimônia que relembra a triste data. Em 2011, com a presença de jovens de movimentos juvenis judaico-sionistas da Diáspora, surgiu a ideia de que o evento fosse organizado em conjunto pelos dois grupos. Na última quinta-feira, dezenas de integrantes do kibutz se emocionaram com a série de discursos e números de música e dança no anfiteatro principal da comunidade. Uma das tarefas do grupo sul-americano era redigir um discurso em hebraico. Eu tive a honra de ler o texto, que escrevi em conjunto com o André Z. e Eytan B., do Chile. O texto consta ao final do post, em hebraico e também em português.

Outro ato a que comparecemos, porém na condição de meros espectadores, foi a parada nacional que se realiza em Tel Aviv, no mesmo local em que Rabin pronunciou suas últimas palavras. A praça estava repleta de pessoas, com destaque para a presença de muitos membros de tnuót noar. Apesar da bela produção e das significativas canções, o evento adquiriu um forte caráter político, devido aos discursos um tanto radicais dos líderes da esquerda, rebaixando um pouco sua qualidade.

No dia 10, fizemos um passeio com o Hanoar que se relaciona em boa medida com o ideal de paz pregado por Rabin. Visitamos o povoado árabe-israelense de Baqa Al-Garbieh, para estudar o modo de vida desta população. Visitamos uma universidade local, conversamos com habitantes e almoçamos em um restaurante típico. Foi uma excelente oportunidade para conhecer um grupo numeroso dentro da sociedade israelense e entender sua visão sobre o que é viver num Estado Judeu e democrático. Jamal, nosso guia durante o dia, entusiasmou-se ao dizer que Rabin foi “o líder nacional mais respeitado e admirado pela comunidade de Baqa”.

A última semana, então, nos fez refletir sobre quem foi Rabin e qual o seu legado para Israel. Concordemos ou não com o caminho que escolheu para alcançar a paz, devemos respeitá-lo e honrá-lo pela beleza de seus ideais, liderança incomum e comprometimento com sua causa.

Discurso proferido no ato em homenagem a Ytzhak Rabin

Shmi itzhak, ben 19, mibrazil, mihatnuat noar Netzah Israel, Hanoar Hatzioni.

Al tagidu “Iom Iavô”, Haviu et haiom!

המחשבה הכלולה ב”שיר לשלום” היתה זו שהובילה את האיש הזה. איש כל כך חשוב לארצינו ולמולדתינו. עם אמרה זו גדלנו וחלמנו, למרות שלעולם לא היכרנו אותו.

ההיסטוריה של יצחק רבין (ז”ל) הרבה פעמים מעורבת עם ההיסטוריה של מדינת ישראל. הוא היה חייל, רמטכ”ל, שר ההגנה ולבסוף ראש ממשלהץ אף על פי כן, מאחורי כל התארים האלו היה איש, אב, בו אדם כמונו.

בהרצאתו האחרונה הוא צייו ” הייתי איש צבא 27 שנים. נלחמתי כל עוד לא היה סיכוי לשלום. אני מאמין שיש סיכוי לשלום”. בשבילינו הוא היה הרבה יותר אבל בדרך אחרת, חייל לשלום, כי הוא האימין שהדרך להגיע אל השלום אינה בדרך הנשק, אלא באמצעות השיח והאמון.

הרבה מנהיגים עשו שימוש במלחמה ברגעים קשים כדי לאחד את העם, אך רבין היה שונה, הוא עשה שימוש בשלום, ובדרך זו הצליח להוביל את העם אחריו, מאוחדים כולם למטרה משותפת.

אנחנו , צעירים  יהודים, ציונים ופעילים בתפוצות, ממשיכים ותומכים במטרה זו, עלינו החובה ליהיות נושאי המסר של רבין להמשך הדרך. אנחנו רוצים עתיד של שלום בארץ ישראל. אנחנו לא יכולים להרשות לעצמינו שהדורות הבאים יישכחו את המטרה שאדם זה הוריש לנו, ועלינו לקחת את האחרייות על המשך מורשתו ועל הלחימה על מנת להגשים את חלומו.

זיכרונו של רבין יהיה לנצח בינינו, כחייל תקווה, חבר העולם, אח העמים.

“לנצח אחי, אזכור אותך תמיד”

 

Versão em Português.

Meu nome é Ytzhak, tenho dezenove anos, sou do Brasil e do movimento juvenil Netzah Israel, Hanoar Hatzioni.

 

“Não digam que ‘o dia virá’, tragam esse dia”

 

O pensamento contido na canção Shir LaShalom foi o que conduziu este homem. Este homem tão importante para a nossa Terra e para a nossa Pátria. Com esses dizeres, crescemos e sonhamos, apesar de nunca termos conhecido-o.

 

A História de Ytzhak Rabin Z”L muitas vezes se confunde com a do Estado de Israel. Ele foi soldado, general, Ministro da Defesa e, ao final, Primeiro Ministro. Mesmo assim, atrás de todos estes títulos, havia um homem, um pai, um ser humano como nós.

 

No seu último discurso, ele afirmou: “Fui um homem do exército por 27 anos. Lutei por todo o tempo em que não havia uma chance para a paz. Agora eu acredito que há uma chance para a paz!”. Para nós, ele foi um homem do exército por muito mais tempo do que isso, mas de uma maneira bem diferente. Foi um soldado da paz, porque acreditava que o caminho para se chegar à paz não era por meio das armas, mas por meio do diálogo e da confiança.

 

Muitos líderes utilizaram a Guerra em momentos difíceis para unir o povo. Rabin, porém, era diferente. Ele usou a Paz, e por este caminho conseguiu guiar o povo atrás de si, todos unidos por um mesmo objetivo.

 

Nós, jovens judeus, sionistas e ativistas na Diáspora, continuamos com e apoiamos este objetivo. Está sobre nós a obrigação de sermos portadores da mensagem de Rabin pela continuação do caminho. Nós queremos um futuro de paz em Eretz Israel! Não podemos permitir que as próximas gerações se esqueçam da meta que este homem nos legou, e somos responsáveis pela continuidade de sua herança e pela luta para realizar seu sonho.

 

A memória de Rabin estará eternamente entre nós, como um soldado da esperança, amigo do mundo, irmão dos povos.

 

“La Netzah Achi, Ezkor Otchá Tamid” (“Pela eternidade, irmão, me lembrarei de ti para sempre” – versos da música Livkot Lechá)

Ato recordatório no kibutz Deganya

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Alguns Acontecimentos as Colinas e o Mar

08/11/2011

Vista do Vale do Rio Jordão ao nível do mar.

“Deixei de asfaltar a rua por alguns momentos e pedi licença a um oficial da SS para poder atuar na coordenação do grupo. Ele pediu a outro soldado que me acompanhasse em direção à a rua ao lado. Não entendi o que estava acontecendo. Tudo o que queria era poder escapar para chegar a Varsóvia. O soldado dobrou uma esquina comigo, mas teve piedade de mim e não me matou. Antes que mudasse de ideia, saí da região na qual os prisioneiros judeus trabalhavam para buscar abrigo. Sabia que meus companheiros do Hanoar Hatzioni precisavam de mim no principal gueto da Polônia”.

O eletrizante depoimento de Uziel Lichtenberg, de 95 anos, deixou a mim e a outros colegas do Shnat estarrecidos. Na segunda-feira, dia 31 de outubro, eu e mais seis companheiros fomos à Ramat Ef’al, sede do Hanoar Hatzioni em Israel, para escutar a história de vida de um dos primeiros membros da tnuá, onze anos mais nova do que ele. Lichtenberg foi nada menos do que secretário-geral do movimento na Polônia durante a Segunda Guerra Mundial e contribuiu para a fuga de muitos judeus rumo a Terra de Israel. Após este terrível período, fez aliá e viveu por algum tempo no kibutz Nitzanim, junto a outros membros do Hanoar. Alguns anos depois, se desligou da comunidade e passou a empreender no ramo de construção civil, tornando-se um dos principais nomes da área no país. Nos últimos tempos, voltou a procurar a tnuá, que foi tão importante na sua vida, para ajudar em projetos como a festa de 85 de fundação (que acontecerá em julho de 2012) e a elaboração de um livro que narra a história do Hanoar.

Este encontro ocorreu no dia seguinte ao megaevento do Masa, realizado em Jerusalém. Mais do que pela excelente música de Idan Raichel, a ocasião foi especial por termos reencontrado vários amigos do Machon e também a equipe da Marvá.

A Itnassut da semana foi sobre cultura israelense. Uma tarde, após a aula de hebraico (ministrada em áreas externas, sobre temas relacionados à história do kibutz), fomos à cozinha para preparar comidas típicas do país. No cardápio, os populares shakshuka, falafel e tehina. O resultado não foi o mesmo dos restaurantes de Tel Aviv, mas valeu pelas risadas em frente às panelas.

No final de semana, os madrichim e coordenadores do Shnat nos brindaram com três atividades muito interessantes. Uma delas foi sobre a influência da música nos vários momentos históricos de Israel, desde os ritmados cânticos dos imigrantes etíopes na Operação Salomão até o emotivo hino pela volta de Gilad Shalit. A segunda, intitulada “Máquina do Tempo”, nos levou a recordar momentos marcantes do Shnat e nos conscientizou de que nos falta pouco mais de um mês em Israel, de modo que temos que aproveitar ao máximo cada segundo. Por fim, passamos por uma dinâmica sobre a agenda política e atualidades israelenses, e fomos questionados sobre em que medida as notícias do país influenciam as nossas vidas, uma vez que somos judeus, porém não vivemos sob as condições econômicas e institucionais dos habitantes do país.

Por falar em notícias, no dia 07 ocorreu uma greve geral dos trabalhadores, que durou quase todo o período da manhã, congelando muitas atividades econômicas. A Histadrut (espécie de sindicato-geral) se solidarizou com determinadas reivindicações dos operários do setor de asseio e conservação públicos e organizou a paralisação, que pouco sentida por nós, já que estamos dentro de um kibutz. No plano internacional, Israel tem tornado de conhecimento geral, propositalmente, a realização de exercícios militares que seriam parte da preparação para um ataque às usinas nucleares iranianas. Por enquanto, tudo se trata de pressionar os persas para que interrompam o processo que pode levar à obtenção da temida bomba atômica, mas a situação se torna imprevisível na medida em que qualquer movimento ou declaração de um dos lados pode mudar todo o panorama.

Os próximos passos do Shnat do Hanoar Hatzioni são um passeio à aldeia árabe-israelense Baqa Al-Garbie, onde conversaremos com habitantes locais para entender como vivem, comeremos comidas típicas e estudaremos a relação entre judeus e muçulmanos que dividem o mesmo espaço público. Além disso, participaremos de dois eventos importantes em lembrança ao assassinato do Primeiro Ministro Ytzhak Rabin Z”L, que completa 16 anos. Na quinta-feira, trabalharemos em conjunto com a juventude de Deganya para apresentar o ato anual em memória a Rabin. Na noite de sábado, viajaremos para Tel Aviv, a fim de presenciar a homenagem nacional a este personagem tão importante para a história do Estado de Israel.

E assim segue o Shnat. Entre o Golan e o Kineret, vamos trabalhando e descobrindo as belezas naturais e históricas do Norte de Israel, uma região conectada de forma eterna ao passado, na qual as pessoas sorriem, o Sol passa caprichoso e calmo e a luz das estrelas se reflete no imenso e sereno mar de que alimenta a quase todo o país.

Entrada de Deganya, com a placa que contém os dizeres "Kvutzat Deganya. Fundada em 5671 (1910).


Doce Vida Kibutziana

29/10/2011

Berl Katzenelson foi um dos principais personagens do pioneirismo kibutziano no início do século XX. Grande responsável pelo estabelecimento das primeiras colônias judaicas no Vale do Rio Jordão, às margens do Kineret, era amigo de David Ben Gurion, que viria a ser Primeiro Ministro de Israel. Convidado a mudar-se para Jerusalém após o estabelecimento do Estado, em 1948, e formar parte do governo, Katzenelson corajosamente agradeceu e negou a proposta, pois decidira nunca deixar uma das regiões mais bonitas de Israel, na qual floresceu o sionismo realizador.

Pouco a pouco, nós, Shnateiros, estamos entendendo o que tanto fascinava Katzenelson. Além das fantásticas paisagens, o Vale do Jordão foi o berço do Estado de Israel, com a inovação do modelo agrícola e a delimitação das primeiras fronteiras do país.

Na segunda-feira, fizemos um passeio guiado por Deganya, que foi parte fundamental desta história. Nos surpreendemos com o incrível campo de futebol, com a proximidade do Kineret e do Rio Jordão e a deliciosa comida do kibutz. À noite, como têm sido rotina, os Shnateiros jogaram tênis ou ficaram no salão comum que temos (“moadon”) para tocar violão ou apenas conversar.

No dia seguinte, escolhemos os trabalhos voluntários em que nos concentraremos durante todo o mês de novembro. A maior parte do grupo vai se dividir entre as duas escolas de Deganya, que recebem alunos de todo o Norte de Israel. Um dos colégios segue o método tradicional de ensino; já o outro oferece aulas especiais para crianças com dificuldade no aprendizado, priorizando o espaço externo à sala de aula. Do Netzah, seis Shnateiros trabalharão neste último local. Nico ajudará na manutenção do zoológico do kibutz com dois colegas argentinos e eu auxiliarei com trabalho agrícola.

Na quarta, fomos ajudar o pessoal de Deganya na limpeza das margens do Rio Jordão, que costumam ficar relativamente poluídas após as Grandes Festas, devido ao alto número de visitantes.

A quinta-feira foi dia de passeio educativo, como serão todas daqui para frente. Guiados por dois membros da Mazkirut Olamit do Hanoar, refizemos a rota histórica do sionismo no Vale do Jordão. Fomos ao primeiro local de estabelecimento de membros do movimento socialista Hashomer Hatzair, que rivalizava com Deganya. Em seguida, fomos à antiga fazenda Chavat HaKineret, onde se capacitavam jovens que chegavam a Eretz Israel para trabalhar a terra. Lá, por uma das primeiras vezes na História, as mulheres recebiam tratamento igual ao dos homens e, graças a uma greve dos trabalhadores locais, uma dissidência se desvinculou para fundar Deganya. Daí, rumamos para o cemitério do movimento sionista no Kineret, onde estão sepultados Katzenelson, Moshe Hess (expoente do sionismo socialista) e a cantora e compositora Naomi Shemer (autora da canção Yerushalaim Shel Zahav). O passeio foi finalizado aos pés do primeiro edifício de Deganya, local onde comparamos os sonhos dos primeiros pioneiros kibutzianos aos nossos; afinal, somos jovens de mesma idade separados por todo um século.

No sábado, eu e mais dois colegas do Peru e do Chile estivemos em um evento festivo para imigrantes uruguaios, no qual propagandeamos a festa de 85 anos do Hanoar Hatzioni, a realizar-se em julho de 2012, com participação do cantor David Broza.

Domingo é dia de megaevento do Masa, com show de Idan Raichel, em Jerusalém; lá, poderemos reencontrar amigos do Machon, além do staff da Marvá. Na segunda-feira, uma delegação do Hanoar – formada por chanichim que dominam o hebraico – está convidada para um encontro com o único fundador vivo da tnuá, de 95 anos.

Em meio a tantas atividades e projetos, temos a calma e tranquilidade que só a vida no kibutz oferece. Aos poucos, vamos entendendo o sistema de vida mais íntimo e coletivo que rege a vida na comunidade e sentindo o sentimento sionista que trazem os ventos do Kineret e o ronco dos motores das máquinas da lavoura. A cada minuto, temos mais certeza de que Berl Katzenelson fez a escolha certa.


Verdadeira Alegria

23/10/2011

Astros da música internacional na gravação da canção oficial do Shnat 2011 do Hanoar Hatzioni (em breve será postada no blog).

“Após 1.941 dias em cativeiro, Guilad está a caminho de sua terra, sua pátria e sua família”.

Foram estas as palavras com as quais o televisor do Dizengoff 113 nos despertou na terça-feira, dia 18 de outubro. Neste dia, parte ainda da festa de Sucot, nos levantamos bem cedo para acompanhar passo-a-passo a transmissão da troca do soldado Guilad Shalit por mais de mil terroristas palestinos.

Ver as primeiras imagens de Shalit caminhando sem ajuda, abraçando seus pais e chegando a sua casa foi impactante. Após mais de cinco anos de angústia e incerteza, Israel parou para assistir o reencontro de um de seus filhos com a liberdade. Em todos os cafés e restaurantes, televisões e rádios estavam sintonizados no processo de recebimento do soldado, permeado por todas as honras militares possíveis e discursos de membros do alto escalão do governo.

Para os Shnateiros, que acompanharam o tempo de sequestro de Shalit durante quase metade da vida na tnuá, estar em Israel durante este momento histórico foi uma experiência indescritível. Depois de tantos atos em homenagem ao soldado e um esforço sem fim para que ele nunca fosse esquecido, acompanhamos de perto sua soltura, num fenômeno nacional só possível no Estado Judeu. Faixas comemorativas em ônibus, a população vestida de azul no dia seguinte à libertação (uma manifestação programada via Facebook) e Guilad como assunto principal de qualquer conversa cotidiana formaram um cenário muito emocionante aqui – e impossível na Diáspora.

Mantendo a onda alegre, a noite da quarta-feira trouxe o feriado judaico de Simchat Torá (“Alegria da Torá”), na qual se festeja o reinício do ciclo anual de leitura do Livro Sagrado. Eu, o Beto D. e o Papu nos aventuramos a nos hospedar no bairro ortodoxo de Sanhedria, em Jerusalém. A fuga momentânea de Tel Aviv foi interessante para ver uma região onde 100% das pessoas estavam mobilizadas em torno da comemoração, sem distinção de idade ou gênero. Realmente, tratava-se de uma alegria verdadeira a atmosfera do bairro, gerada unicamente pela satisfação em poder começar mais uma vez a ler e a decifrar os ensinamentos contidos na Torá.

À noite, descobrimos o costume israelense de promover “Akafot Sheniot”, que consiste em seguir com as tradicionais danças com a Torá mesmo após o nascer das estrelas, que significa o final da festa. Um dos focos de comemoração foi a Kikar Rabin, em Tel Aviv, que reuniu mais de 4 mil pessoas.

Os dois dias que se seguiram foram uma alegre, porém difícil, despedida de Tel Aviv. A kvutzá aproveitou o final de semana para dar um último passeio pela praia, comer nos restaurantes preferidos e aproveitar tudo o que a “cidade sem intervalos” nos oferece. No domingo, trancamos pela última vez a porta do Dizengoff 113 para viajarmos rumo ao belíssimo kibutz Deganya Alef, onde segue a última parte do Shnat. Apesar da cansativa viagem, estamos felizes por estarmos no kibutz mais antigo de Israel (fundado em 1909), em uma zona privilegiada pela natureza e às margens do Lago Kineret. Ao longo da semana, começarão os trabalhos voluntários (para alguns em Deganya e para outros em Tibérias), as aulas de hebraico, passeios e reuniões para elaboração de projetos para a tnuá.

Deganya já possui vários departamentos privatizados, e sua importância para o país se exemplifica no fato de o Poder Executivo realizar uma sessão por ano nas dependências do kibutz.

A segunda-feira será um dia especial, de reconhecimento do kibutz e toda sua infraestrutura e de partes do exuberante Vale do Rio Jordão. Os ares da Galileia já começam a inspirar os Shnateiros, que, com certeza, passarão um tempo muito inspirador no local de nascimento de Moshe Dayan e Joseph Trumpeldor.

Chazak Veematz!

***

No menu “Música Israelense”, você pode encontrar o link da canção Achshav Sheatá Khan, de Arik Einstein e Guy Bocati, que celebra a volta de Guilad Shalit a Israel. Confira!


As Quatro Espécies

17/10/2011

Sucá do Dizengoff 113.

"Bem vindos aos portões da Sucá do Presidente". É bom ter amigos influentes...

 

Está terminando o grande bloco de festas do começo do ano judaico. Passamos por Rosh Hashaná, os dez dias de arrependimento, Yom Kipur e o início de Sucot. Agora, vive-se a expectativa por um alegre Simchat Torá. O grande símbolo da presente festividade são os arbaat haminim, ou Quatro Espécies (lulav, etrog, hadas e arava), que, abençoados todos juntos, representam a união do povo judeu, independentemente do seu nível de prática religiosa.

Pela primeira vez na vida, os Shnateiros pudemos adquirir o nosso conjunto das Quatro Espécies por um preço equivalente a 15 dólares, que só pode ser comprado no Brasil por uma quantia cinco vezes maior. Da grande feira de ocasião na Kikar (Praça) Rabin, além da compra citada, levamos também as grandes folhas de palmeira para formar o teto da Sucá que construímos no terraço do Dizengoff 113. Sim, montamos uma sucá no nosso próprio apartamento, decorada com as cores do Netzah, para vivenciarmos a festa de forma completa.

E se o mote do chag é a união do povo apesar das diferenças, resolvemos visitar o museu Beit HaTfutsot (Museu da Diáspora) em nosso tempo livre. A mostra apresenta maquetes incríveis de várias sinagogas ao redor do mundo – sendo que algumas delas já nem existem – e conta como o judaísmo se perpetuou mesmo com 2.000 anos de dispersão.

Apesar de, no museu, termos verificado que o judaísmo se reunificou novamente em sua terra natal, um passeio conduzido pelo Hanoar nos mostrou que Israel também é um cenário de grandes diferenças. Com o objetivo de elaborar um álbum de fotos sobre a sociedade israelense, na última quarta-feira visitamos as cidades de Bnei Brak, de população ortodoxa e poucos recursos; de Yaffo, para fotografar a coexistência entre judeus e árabes; além de regiões ricas e pobres de Tel Aviv. Outro projeto da semana foi a ida a um estúdio profissional para a gravação da canção da kvutzá Shnat 2011, que tem o tema “Realização”. Assim que sair o vídeo da música, ele será postado no blog.

Na noite anterior à gravação, os Shnateiros do Netzah fomos a Jerusalém, para acompanhar a tradicional comemoração de Simchá Beit Hashoevá, que acontece no meio de Sucot. A cidade estava repleta de cabanas, muitas montadas em frente a restaurantes para que os clientes possam desfrutar de uma ambientação típica da festa. Além disso, música era ouvida por todos os lados e a população foi começou a se recolher tarde da noite. Aproveitamos o convite de amigos brasileiros para dormir na sucá da Yeshivá Binyan Olam e comer uma feijoada que nos fez lembrar bastante de casa.

Para coroar o passeio na capital do país, visitamos a residência oficial do Presidente da República, que é aberta ao público uma vez ao ano. A enorme casa abriga, nesta época do ano, uma linda Sucá, e o evento contou com orquestra e exposições variadas no jardim atualmente ocupado por Shimon Peres.

Para este Sucot ser perfeito, então, falta apenas um elemento. Ou melhor, faltava. Por cinco anos, as Quatro Espécies estiveram completas, mas o povo judeu não. Por cinco anos, um membro da grande família que é Israel esteve ausente na Sucá. No entanto, este chag terminará, se D’us quiser, com Gilad Shalit outra vez entre nós.

Foi com surpresa, uma ponta de apreensão e bastante alegria que recebemos a notícia da troca do soldado sequestrado em 2005 por 1.027 terroristas da organização Hamas. Depois de tantos atos em sua homenagem e tanta especulação ao redor das negociações, um irmão nosso voltará para o lar. Poderá escolher novamente o que comer ou vestir e quando ou aonde ir. Falará hebraico e celebrará o shabat com seus pais e irmãos.

Realmente, o câmbio foi um dilema terrível enfrentado pelo governo de Israel. Mas agora não é momento para remoer o assunto. Foi o outro lado que estipulou o preço. Se eles acreditam que 1 de nós vale 1.027 deles, teremos força para lidar com todos.

Agora, Gilad deve ir para a sua casa e voltar a ser um anônimo para viver normalmente. No próximo post, virão detalhes de como foi sua chegada a Israel e a recepção no país.

Para Gilad, para Israel e para todos nós, Chag Sameach.    


Um Amém para Einstein

10/10/2011

Parte do grupo de voluntários do Hanoar no Centro Aliza Begin.

Graças aos trabalhos pioneiros de Einstein, temos hoje uma nova visão dos conceitos de espaço e tempo, principalmente com o advento da Teoria da Relatividade. Em 1905, o cientista publicou os primeiros dos seus célebres trabalhos. Adquiriu, posteriormente, notoriedade e a reputação de ter sido um dos maiores gênios da Humanidade.

O grande físico pode ter, de fato, encontrado várias relações entre as dimensões da natureza. No entanto, foram os shnateiros de 2011 que encontraram talvez não a mais revolucionária, mas, com certeza, a mais sagrada combinação entre espaço e tempo. Foi o Iom Kipur 5772, que passamos na Cidade Velha de Jerusalém.

O Hanoar Hatzioni, assim como as outras tnuót que estão em Israel, levou seus chanichim para passar o dia mais sagrado do ano no lugar mais santo do planeta. O bairro judaico fervilhava com os preparativos na tarde de sexta-feira, com pessoas correndo para fazer mikve e kaparot. Como parte da experiência, nos unimos a esta agitação percorrendo as ruelas da antiga Jerusalém e verificando a presença de judeus do mundo todo, que estavam ali para acompanhar o grande fenômeno que ocorreria durante as 25 horas seguintes.

O período do jejum foi muito sereno. Nas sinagogas de toda a cidade, havia pessoas rezando em grandes aglomerados ou apenas murmurando pedidos e lamentos. O grande momento foi o da reza da Neilá, que acontece uma só vez ao ano. Em frente ao Kotel, fazíamos nossos últimos pedidos em meio a uma fantástica energia que emanava da multidão presente. Quando a noite finalmente caiu e soou o toque do shofar, comida foi distribuída e formou-se uma grande roda de dança em frente ao Muro.

Após algum tempo livre com os amigos na Rua Ben Yehuda, tão frequentada durante os tempos de Machon, voltamos para Tel Aviv para poder descansar para a atividade do dia seguinte. Esta consistiu em acordar bem cedo e ir para Ramat Ef’al, sede mundial do Hanoar, para a nova Itnassut. Construímos uma escultura em gesso para enfeitar os escritórios do lugar, com ajuda de uma artista profissional, sobre o tema de Selichot (Perdão). A obra tinha a forma de uma gota, simbolizando uma lágrima e a água, elemento essencial para a existência de vida.

Na segunda-feira, tivemos mais um dia de reuniões para elaborar projetos para o Netzah com ajuda de coordenadores mundiais do Hanoar e ainda deu tempo de aproveitar o pôr-do-sol na praia, que vêm acontecendo cada dia mais cedo.

À noite, tivemos uma experiência única. Aproveitamos o amplo terraço do apartamento 1 do Dizengoff 113 para montarmos, com nossas próprias mãos, uma sucá para a festa que se aproxima. A obra, até o fechamento desta edição, ainda não havia sido concluída.

A aproximação da festa, aliás, pode ser percebida em Tel Aviv com o anúncio de diversos eventos relacionados e até com uma grande feira das “quatro espécies” na Kikar (Praça) Rabin.

Os próximos dias prometem. Na quarta-feira, sairemos em uma grande expedição fotográfica por Tel Aviv e arredores, o que será a base da próxima Itnassut. No próximo post, esta será explicada com detalhes.

Aproveito para desejar um chag sameach a todos, e que possamos utilizar a vivência na sucá para reforçar nossos valores de família e de humildade.

***

Bronca shnateira da semana:

“Você vai sair do meu quarto em 1 segundo! Um, dois, três…!”. 


Dizengoff 113

03/10/2011

Primeiro dia em Tel Aviv.

Muitos convidados têm passado pelo Dizengoff 113, onde o papo é animado, a música é boa e a cozinha só fecha após a saída do último cliente. Ter um apartamento no centro de Tel Aviv está sendo uma ótima oportunidade para rever os amigos de outras tnuót que não encontrávamos há muito tempo.

De qualquer forma, não poderia ser diferente. Desde o primeiro contato com a cidade (no post “Altneuland”), crescemos bastante, nos adaptamos ao modo de vida israelense e já nos sentimos parte da sociedade. A cidade possui um ritmo agitado, mas que se rende a momentos de prazer como uma parada para um café gelado ou um mergulho no mar, atividades que temos adotado após voltarmos exaustos do trabalho e enfrentarmos o trânsito das grandes avenidas.

Um dos mais profundos contatos que tivemos com a população majoritariamente laica e moderna de Tel Aviv foi a nossa primeira Itnassut ou, como me referi no post anterior, projeto para Israel. Sob o tema “Judaísmo”, a ideia foi distribuir os novos calendários judaicos do Hanoar Hatzioni junto com uma maçã, que poderia ser usada na noite de Rosh Hashaná.

A festividade, aliás, foi um espetáculo à parte. Um Ano-Novo em setembro, e sem fogos de artifício, pode parecer um pouco estranho a um brasileiro comum. Porém, em Israel, se destaca o caráter comunitário da festa, que não é comemorada com álcool e praia, mas com um país inteiro orando por um ciclo de paz e prosperidade.

A presente semana está sendo permeada pela espera de uma experiência que promete ser inesquecível. Na sexta-feira, viajaremos a Jerusalém para passarmos o Iom Kipur na cidade Velha, com todo o grupo do Hanoar Hatzioni. Ou seja, vamos estar no local mais sagrado para o judaísmo durante o dia mais santo do ano. Seguramente será uma oportunidade excelente para um balanço não apenas das nossas ações nos últimos doze meses, mas também de todas as nossas vidas.

A aproximação do Iom Kipur me fez pensar um pouco no significado da própria tradução do nome da festa para o português: “Dia do Perdão”. O ato de perdoar é tão valorizado pelas fontes judaicas que o único pecado do qual alguém não pode ser redimido é o próprio não perdoar.

Além disso, Iom Kipur dura apenas um dia. Vinte e quatro horas e alguns minutos mais não são suficientes para que uma pessoa perdoe e busque perdão por um ano inteiro. Assim, creio que este dia deve marcar o início de um processo em que a pessoa se comprometa a conviver com a prática do perdão. Tal prática pode ser equiparada em certa medida à da tefilá (oração), já que deve ser constante e em que o grande beneficiado, muitas vezes, é o sujeito da ação.

Desejo a todos um Gmar Chatimá Tová, e que, em 5772, Guilad Shalit possa finalmente retornar a sua casa.

Frases inusitadas de última hora:

“Cara, já está acabando a parte em Tel Aviv. Falta menos de um mês! Faltam apenas 32 dias!”. Falha matemática de um dos nossos shnateiros.

“O presidente do Afeganistão cometeu um atentado suicida e morreu!”. Exclamação de um shnateiro ao ler a manchete “Presidente do Afeganistão morre em atentado suicida”.