Prazer, Mohammed!

19/02/2011

      (Este texto foi escrito para o site do Netzah, no ano passado. Publico-o aqui pois está relacionado com discussões que tivemos nas últimas atividades do seminário de Michlelet Rupin)

 

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      Qual destes foi o nome campeão de registros na Inglaterra em 2009: Jack, John, William ou Harry? Se você achou que era qualquer um destes ou algum outro de inspiração anglo-saxônica, errou. Estudos divulgados na última semana mostraram que mais de 7 mil mães inglesas batizaram seus bebês como “Mohammed” no ano passado.
      Além dos novos “Mohammeds”, há também uma legião de Ahmeds, Mahmouds, Alis e outras tantas crianças com nomes árabes no Reino Unido, acompanhando uma tendência já verificada em países como Suécia e Holanda.
      A expansão islâmica sobre a Europa não se resume ao mero domínio demográfico. Quem acompanhou a última Copa do Mundo conheceu os craques Khedira e Ötzil, provenientes de famílias da Tunísia e da Turquia. Os atletas jogaram ao lado de Müller e Klose no time 3º colocado no Mundial, a seleção alemã. Também nas artes e na política começa a emergir uma força islamizada que sai das periferias das grandes capitais já com um grande público cativo. Para quem acredita que a América Latina está alheia ao fenômeno, é recomendável uma visita ao bairro do Brás, em São Paulo.
      O alto crescimento populacional das comunidades islâmicas preocupa o Estado de Israel e os judeus pelo mundo. Uma grande quantidade de jovens muçulmanos marginalizados cultural e economicamente se torna perigosa na medida em que, impulsionados pela base religiosa, apresentam-se dispostos à violência contra a população laica tradicional e articulam-se no sentido de promover iniciativas de auto-afirmação cada vez mais contundentes, como atentados internacionais. A notícia mais amena é que as comunidades de orientação mais extremista ainda não manifestaram a capacidade de mobilização política institucionalizada – a mediação internacional europeia ainda está resguardada das recomendações do Corão.
      Enquanto os imigrantes muçulmanos afirmam sua força com o crescimento populacional acelerado, os governos seculares travam batalhas por meio das leis. Recentemente, a França deportou milhares de ciganos que viviam no país em situação irregular. O governo Sarkozy ainda aprovou uma lei que veda o uso de símbolos religiosos – leia-se “véus” – em locais públicos. A iniciativa só serve para mascarar o fenômeno em questão, mas não tem eficácia prática. A Suíça, por sua vez, proibiu a construção de minaretes em determinadas localidades. É certo que os mandatários do Velho Continente desejam reafirmar as origens nacionais, porém as medidas adotadas só geram maior discussão sobre racismo, direitos humanos e um véu (com o perdão do trocadilho) sobre um problema muito maior. Um exemplo contrário é o do prefeito de Nova York, o judeu Michael Bloomberg, que, em decisão polêmica, permitiu a construção de uma mesquita em localidade próxima ao World Trade Center.
      Numa briga entre cristãos e muçulmanos, como já diziam os profetas, sobra para os judeus. No Reino Unido, os Jacobs e Tonys não conseguiram conter o furor popular, e o ensino do Holocausto nas escolas primárias foi abolido.
      No ano 732, o prefeito-de-palácio (governante de fato) do Reino Franco, Carlos Martel, comandou a vitória cristã sobre as forças árabes na Batalha de Tours ou Poitiers, sendo conhecido como “salvador da cristandade”, por, dessa forma, evitar a consumação da expansão muçulmana sobre a Europa, que já havia se consolidado sobre a Península Ibérica. Graças ao triunfo, a Europa permaneceu sendo um continente predominantemente cristão e fundou-se a dinastia Carolíngia. Parece que, quase 1.300 anos depois, o Islã encontrou uma nova rota de entrada na Europa. Entretanto, os europeus nativos não parecem dispostos a proteger sua identidade com o mesmo vigor, e os judeus precisam se manter atentos para que não fiquem à mercê dos ânimos alheios.

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Oportunidade de Estágio

08/02/2011

De forma mais acelerada ou mais lenta, Hosni Mubarak vai arquitetando sua saída da política egípcia. Ele deseja transmitir o poder para alguém de sua confiança, o que perpetuaria um regime autoritário. A oposição também planeja uma tomada vigorosa do governo, com a imposição imediata de medidas drásticas, o que representaria uma guinada fundamentalista para o Egito, ou seja, a continuação do autoritarismo. Enquanto um mínimo de fidelidade das forças de polícia ainda mantém Mubarak ligado ao trono, abre-se uma nova oportunidade de estágio para o cargo de ditador-de-país-subdesenvolvido.

 

“O cargo oferece ampla estabilidade (em torno de 30 anos), auxílio moradia, emprego aos parentes do titular, avião privado e segurança permanente; além disso, é permitido ao funcionário alterar a legislação nacional e controlar todas as opiniões discordantes do exercício de suas atribuições. Oferece-se salário que supre todas as necessidades do empregado e seus familiares. É exigida uma posição política extremada. Apresentar currículo ou alguns milhões de simpatizantes armados, na Sede de Governo. Tratar com os generais das Forças Armadas”. 

Convidativo, não? No entanto, desolador. Ironias à parte, o que se vê atualmente, da América ao Extremo Oriente, é uma relação de inversa proporcionalidade entre desenvolvimento humano e liberdade – exceção feita ao caso chinês. Nos países afundados em ditaduras, os levantes populares assustam porque não propõem soluções essencialmente democráticas, caso do Egito de 2011.

 

Admite-se estagiário

Um dado interessante é o fato de que ditador que se preze pode até aceitar o fim de seu poder, mas sempre possui um estagiário apadrinhado na retaguarda (sim, empresas são mais parecidas com Estados do que parece). Na Líbia, o pré-histórico Muammar Khadafi dirige um governo extremamente moralista enquanto seu filho – e provável sucessor – organiza festas particulares com shows de artistas como a estonteante Beyoncé. Já na Coreia do Norte, Kim Jong-il condecorou seu filho como general de quatro estrelas e ofereceu-lhe um singelo automóvel da grife Porsche. O jovem “príncipe” pode explorar toda a velocidade do seu carro nas ruas quase desertas de Pyongyang, em que circulam poucos veículos, semelhantes aos que existiam no Brasil nos anos 1970. 

Por falar em Brasil, nós temos uma versão nacional de Kim. Trata-se de José Sarney. Presidente da República e do Senado, governador do Maranhão, parlamentar pelo Amapá… Mudam-se os governos, mudam-se as alianças, mas Sarney permanece na boca da cena política. Tido como “fator de estabilidade” (?), esteve tanto com FHC como com Lula e Dilma. Tanto pela Ditadura quanto pela Redemocratização. E ofereceu vaga de estágio à filha Roseana, que não vingou.

 

Só para não correr o risco de sofrer uma prisão política, me vejo obrigado a citar Cuba. Sai Fidel, entra Raúl; o time dos Castro está perdendo, mas não se mexe. Também é prudente lembrar Robert Mugabe, que se pretende proprietário do Zimbábue desde os tempos em que a internet não existia e ninguém sabia que Diego Maradona era usuário de drogas. 

Tenho consciência de que falei mal de muita gente, e que isso dificulta a aceitação do pedido que farei adiante. Entretanto, a entrada na vida adulta me obriga a fazê-lo e, com um pouco de sorte, serei atendido: alguém está oferecendo alguma boa oportunidade de estágio?


O Poder de Cada Um

27/01/2011
 

“Um fantasma ronda a Europa”. Foi assim que, ainda no século XIX, Karl Marx anunciou a inevitável vitória comunista sobre o Velho Continente. Hoje, já no século XXI, a frase poderia ser adaptada para “um fantasma ronda o mundo árabe”. Entretanto, o “fantasma” atual, diferentemente do primeiro, já dominou quase todas as nações do mundo e parece ter sido incorporado definitivamente por vários países: a democracia.

 

Algumas exceções à esta maravilhosa assombração, Mauritânia, Argélia e Tunísia viveram recenetemente momentos de tensão política. Os respectivos ditadores com aspiração à eternidade simplesmente não conseguem mais esconder de suas nações o mundo como ele realmente é. Não podem mais sustentar a bolha de envolvia a imaginação das pessoas há tempos atrás, controlando a informação e os precursores de Facebooks e Twitters.

Agora é a vez do Egito do tirano Hosni Mubarak. O país, que já esteve na vanguarda do Mundo Árabe, se vê as voltas com uma revolução. O mais intrigante nos conflitos ocorridos recentemente na terra do Nilo são os protestos realizados por meio de suícidios. A partir do momento em que seres humanos preferem atear fogo aos próprios corpos a gritar empunhando cartazes, pode-se ter certeza de que a situação exige mudanças drásticas na estrutura política.

Os críticos da democracia são muitos. A eles, uma mensagem lapidar, do ex-Primeiro Ministro britânico Winston Churchill: “A democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais que têm sido experimentadas ao longo do tempo”.

A democracia, de fato, exige maior paciência para as transformações. No entanto, não cobra a liberdade humana em troca do progresso.

 
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As agitações democráticas têm se espalhado pelo Norte da África e pelo Oriente Médio de maneira tão rápida e intensa que me fizeram refletir sobre a “irradiação” em escala micro. Isto é, o espalhamento de emoções de pessoa para pessoa.

Cada ação humana precisa de um impulso, que é dado por uma força motriz interna. Esta força pode ser entendida como a soma de todas as emoções já vividas: intensas, breves, positivas, negativas, e assim por diante. 

Neste momento cabe a pergunta: como fazer, então, para que essa tal força esteja numa inclinação ascendente, e nos empurre rumo a conquistas positivas? Para responder, devemos fazer uma pequena reflexão. Nós conseguimos nos lembrar, talvez, de mais pessoas a quem fizemos algum mal do que a quem fizemos algum bem. Entretanto, é quase impossível nos lembrarmos de mais gente que nos fez mal em relação a gente que nos fez bem. Por “bem”, pode-se entender uma pequena ajuda despretensiosa, uma ligação telefônica, uma visita ou um simples abraço. A consciência permanente de uma realidade de soma positiva é o que pode acelerar o motor interno de cada um de nós, ficando em segundo plano o sentimento de quem agiu.

Quando esta mentalidade se consolida, temos um motor interno ascendente. E passamos a perceber e fazer o bem com maior frequência. Nos tornamos pólos irradiadores de sentimentos positivos e agradáveis. E então entramos em sintonia com outros pólos idênticos, num movimento que despreza a magnética.

A sintonia se deve à unidade desapercebida, porém existente, no mundo. É a crença que um bem realizado por alguém a outra pessoa afeta toda a humanidade, como uma pequena onda no mar.

As ações humanas, individuais ou coletivas, devem ser acompanhadas da consciência do fenômeno da irradiação. Seja espalhando a democracia e derrubando governos despóticos e pré-históricos ou apenas dizendo um “bom dia”, cada pessoa deve viver sabendo da alta carga de energia que envolve suas ações.

Irradiando...


Ministério das Relações Complicadas

11/01/2011

Entre todas as nomeações do governo Dilma, uma das mais aguardadas era a de Ministro das Relações Exteriores (mais até que para o Ministério da Pesca, criado por Lula!). A pasta foi entregue a Antonio Patriota, secretário-geral do Itamaraty durante a gestão de Celso Amorim.

É irônico pensar que alguém de sobrenome Patriota seja o novo chanceler. Seria algo parecido com ter Erenice Guerra no Ministério da Defesa. No campo hipotético, é claro; caso contrário, a família Guerra já teria alguns caças taxiando em seu hangar particular.

 

O novo ministro leva nas costas a obrigação de exercer uma política externa coerente. Seu antecessor justificava qualquer manobra internacional por meio de um vago “princípio democrático”. Inchou a Constituição de um lado e rasgou o outro. Art. 5º, inciso IIº, da Carta de 1988: “A República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais pelos seguintes princípios: prevalência dos direitos humanos”. 

Outra missão ingrata para Patriota será conduzir o imbróglio envolvendo o ex-terrorista italiano Cesare Battisti, que só deve terminar na Corte de Haia. De novo a questão da coerência. Se o Brasil deportou os atletas cubanos que tentaram fugir do regime aproveitando os Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro (ressalte-se: atletas), por que não extraditar Battisti, seguindo tratado bilateral de extradição firmado com a Itália?

 

Se a extradição não ocorrer por bem, é sinal que a influência ideológica do governo continuará pesando sobre o Judiciário e sobre o Itamaraty. Lula, por exemplo, mostrou que de cubanos só conheceu os irmãos Castro e os charutos, a despeito da realidade do povo que vive sob a cruel ditadura.

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Charutos, aliás, foram o símbolo do auge da crise aérea brasileira, cujos efeitos ainda são sentidos por quem passa pelos aeroportos brasileiros, principalmente neste mês de janeiro. A imagem da ex-diretora da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), Denise Abreu, fumando enquanto controladores de voo realizavam um motim e o sistema aéreo estava à beira do colapso, mostra qual é o empenho das secretárias governamentais em mudar a situação caótica dos transportes aeroviários desde 2007. A outra foto que marcou a crise, dessa vez ligada ao acidente entre um Boeing da Gol e o jato Legacy, foi a do assessor da presidência (que continuará no cargo em 2011) Marco Aurélio Garcia, desdenhando da tragédia por meio de gestos obscenos.  

Marco Aurélio Garcia, conhecido por suas posições radicais antiamericanas, continuará fazendo o possível para interferir no trabalho de Antonio Patriota. Já Denise Abreu acusou Dilma, então Ministra-Chefe da Casa Civil, de ter pressionado a Anac para que a venda da Varig para um fundo americano fosse aceita; intimada a depor no Senado, não perdeu tempo em afirmar “não fumo charutos!”. Sumiu desde então.

 

E Dilma, honorabilis maestra del raciocinius complicadus, tem um estilo bem-conhecido ao tratar de dependentes químicos, como mostrou em debate na Band, no ano passado: “O Estado de São Paulo tem mais de 300 mil drogados!”. Eu já mencionei que Denise Abreu sumiu da cena política?

É proibido fumar a bordo da aeronave…

Uma semana de Dilma #45

08/01/2011

Uma semana de mandato. Foi tempo suficiente para que a presidente eleita Dilma Rousseff ocupasse o centro da cena política brasileira, enquanto o (com o prefixo reafirmado) ex-presidente Lula aproveitava para conseguir passaportes diplomáticos para filhos e netos e se hospedava no Forte dos Andradas. A base militar do litoral paulista deveria servir de hospedagem apenas para mandatários em exercício – nada que não possa ser contornado por um gentilíssimo convite do Ministro da Defesa.

Em todo o caso, quem manda agora é Dilma. Ainda em lua-de-mel com o Brasil, ela de início adotou medidas compatíveis com a ideologia do PT e que contrariam o candidato José Serra (PSDB), derrotado nas eleições. Certo? Não!

Após bradar contra a privatização de bacias petrolíferas, do Sol, da Lua e muitos outros bens públicos, Dilma simplesmente anunciou que vai tomar tal medida em relação aos aeroportos de Cumbica e Viracopos, ambos no Estado de São Paulo. Só é possível acreditar em duas coisas: que mudam-se os governos, mas a prática é idêntica; ou que o bom-senso será maior que a ideologia no governo Dilma.

Decepção para quem quis se escorar na maternidade da nova presidente também foi a notícia de que o salário mínimo, por enquanto, não será aumentado. A insatisfação se deve ao fato de José Serra ter prometido, ainda que numa cartada desesperada, uma elevação imediata do piso para R$600. É arriscado, no entanto, culpar Dilma pela estagnação do vencimento, já que a promessa eleitoral veio justamente de seu adversário e ainda não se pode afirmar a segurança econômica do aumento.

No campo político, o PMDB do vice-presidente Michel Temer parece insaciável na caça aos cargos loteados. As divergências quanto à delegação de pastas para o partido tornaram-no uma espécie de bola-de-ferro para um governo que está aprendendo a caminhar.

Se o PMDB trouxe algo de bonito para Brasília, foi a vice-primeira-dama Marcela Temer, quase 43 anos mais jovem que o marido. Porém, é um homem quem continua a fazer a capital ferver: o ex-terrorista italiano Cesare Battisti. Lula o deixou de presente para Dilma, mostrando que “companheiro de luta” não tem nacionalidade, e que ideologia, para ele, supera o bom-senso. Enquanto a extradição de Battisti segue indefinida, o ex-presidente começa a entrar num ritmo Berlusconi de vida e Dilma planeja suas próximas semanas.


Enquete

07/01/2011