A Vida em 24 Atos

12/02/2011

Fulano sentiu um calor gostoso. Abraçava os próprios joelhos. Começou a sentir uma estranha necessidade de abrir os olhos e assim o fez. O calor que antes era reconfortante começou a causar asfixia, então Fulano afastou rapidamente as pesadas cobertas que repousavam sobre todo o seu corpo e a luz invadiu seus olhos. A dor foi tamanha que provocou um choro agudo, porém breve.

Fulano engatinhou até a beira da cama e se levantou, com o apoio do criado-mudo. Tentou falar alguma coisa, mas as muitas horas de sono permitiram apenas alguns grunhidos na direção da televisão, que fora esquecida ligada e transmitia, pela manhã, incríveis desenhos animados japoneses.

De rosto lavado, Fulano foi à mesa do café-da-manhã. Brincou com os flocos de cereais que boiavam no leite enquanto lia o jornal; desta leitura, só conseguia entender as manchetes, escritas em letras garrafais – sua visão ainda não estava acostumada às minúsculas letras do corpo do texto. Achou engraçado o fato de alguns fios de barba já aparecerem pelo seu rosto. Voltou para o quarto e vestiu-se. Contrariado, pegou o primeiro suéter do armário. Mamãe jamais o deixaria sair sem que estivesse devidamente agasalhado, e os passos dela já podiam ser ouvidos do outro lado do corredor. 

Fulano agarrou a chave do carro, foi até a garagem e… Liberdade! Arrancou com o automóvel pelas ruas, xingou os outros motoristas, fez manobras arriscadas ao som de Deep Purple e chegou ao trabalho. Entrou na empresa, cumprimentou seus superiores e foi para sua sala. Ligou o som alto e irritou-se quando percebeu que suas tarefas do turno da manhã se resumiriam a ler e redigir relatórios, além de preparar planilhas com números demais e letras de menos. O que poderia fazer? Se quisesse ascender a um cargo de chefia, o caminho a ser trilhado começaria inevitavelmente pela tediosa papelada. Afixou um aviso escrito “Fulano Está de Férias” na porta da sala, para não ser incomodado. Quem sabe assim o dia terminava rápido, e ainda daria tempo de jogar tênis e tomar uma cerveja com os amigos? Fulano estudou os papeis com afinco e determinação, preparou o melhor trabalho possível e entregou-o na sala do chefe. Agora se sentia preparado para controlar as movimentações financeiras, no turno da tarde.

Saiu para o almoço, no refeitório da empresa. Era bom evitar o açúcar. A idade chegava depressa e estava na hora de começar a prestar mais atenção à saúde. Sentou-se com um colega, falou sobre o Palmeiras e sobre a crise na Grécia. No entanto, quem prendeu sua atenção foi a moça da mesa da frente, Ana – ela trabalhava no departamento de Marketing. Fulano achava-a realmente interessante e, na idade em que estava, já era hora de pensar em alguém com quem pudesse compartilhar o resto da vida. Prometeu a si mesmo que ligaria para ela dia seguinte.

Fulano voltou para sua sala. Tirou do bolso um encarte com uma breve oração e rezou. Deixara a fé de lado por muito tempo, mas os próximos passos de sua vida demandavam algum apoio Superior. Vestiu o paletó e a gravata, e encaminhou-se para a reunião com representantes de uma empresa concorrente. Eles aceitaram a fusão das companhias, e Fulano foi agraciado com uma comissão milionária. Com ela, ele poderia comprar um belo carro para seu filho, que acabara de entrar na faculdade, e presentear sua esposa, Dona Ana, com um anel digno das bodas de prata.

Contente, saiu da sala de reuniões para tomar um café. Não exatamente para beber o preparado de pó, água e açúcar, mas para poder aproveitar este ritual de relaxamento e introspecção consagrado pela modernidade sob o nome de “café” – algo metafísico. Refletiu sobre sua vida. O que ele estava fazendo a cada dia? Onde tinha ido parar sua coragem? Reconheceu que tinha se esquecido de coisas mais importantes do que seu trabalho. Cofiou a barba grisalha e assistiu ao pôr-do-sol através das janelas de sua sala, no último andar do edifício.

 

Café Metafísico

 

Encerrou os últimos pagamentos do dia, utilizando seu smartphone, cumprimentou os funcionários em final de expediente e desceu até a garagem, onde o motorista particular o esperava a bordo da Mercedes preta.

Fulano, já pelas ruas, analisou os autos do processo do divórcio do filho e da nora. Queria entender como poderia ajudar na obtenção da guarda dos netos para a sua família. Mas nem seus poderosos óculos corrigiam mais as falhas na visão causadas pela catarata.

Chegou em casa e saiu do carro com ajuda do motorista e de uma bengala. Entrou na sala de jantar e encontrou a esposa já sentada na mesa, à sua espera. Comeram sem conversar muito, ele tomou seus remédios e deu um grito abafado ao sentir uma pontada no peito. “Você precisa se cuidar, Homem…”. Ela sempre dizia isto. Ele ignorou o conselho, agarrou o andador e chegou ao quarto.  Tirou os sapatos e deixou o corpo cansado cair sobre a mesma cama da qual se levantara pela manhã. 

Fulano acariciou o próprio rosto, que estava áspero e com rugas profundas. Pegou o controle remoto e ligou o televisor. Alguma coisa estava errada… Percebeu que havia se esquecido dos números correspondentes a cada canal. “Estes lapsos de memória estão me matando!”. Mais uma pontada no peito. Sentiu dificuldades para respirar e a visão ficou embaçada. Foi invadido por um calor gostoso… E não escutou mais nada.

Foi quando um homem de touca azul e avental branco veio até o leito de Fulano e gritou: “Dr. Abreu! Não há mais nada a fazer! Prepare equipe para a autópsia”.

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Lógica

24/01/2011

Aula das 22h40 na Faculdade. Aquela enevoada terra que fica entre o sono e a lista de presença. O Professor, exausto, termina a exposição e se encaminha para fora da sala de aula. Um aluno, também cansado após um dia inteiro de trabalho e estudos, sai da sala apressadamente e alcança o mestre. Sim, ele precisava mostrar serviço e ganhar alguns acréscimos na nota para não ser reprovado. Sim, na universidade as duas coisas estão relacionadas.

O aluno chega, esbaforido, na frente do professor. Ele está esbaforido (bela palavra!). Dormira por quase metade da aula. Ao perceber a ansiedade no rosto do aluno, o mestre resolveu exercitar-se na sua arte preferida: aumentar a ansiedade do aluno.

— Diga, meu jovem. Alguma dúvida sobre os últimos textos?
— Acabei de ler o “Banquete”, de Platão, professor.
— Platão? Não sabia que você falava alemão!
— É alemão?! Pensei que fosse russo… Mas li traduzido para o português.
— Não tem problema, jovem. São todas línguas latinas, não? Você pode conhecer uma delas e entender as outras perfeitamente. Tudo depende do ponto de vista e de certa flexibilidade. Por exemplo: se eu digo “Fulano nasceu em Pelotas”, obviamente quero dizer que ele nasceu no Rio Grande do Sul…
— E não que ele nasceu em pedaços. Certo.
— Perfeito. Se um paulista diz ao outro “aparece em casa um dia desses!”, ele quer dizer que…
— Quer se encontrar com o outro algum dia?
— Não! – o tom de voz do Professor foi ameaçador. Ele quer dizer: “bom, eu vou sumir, você vai sumir, e por mim está ótimo!”.

O aluno fez cara de interrogação e achou melhor mudar de assunto:
— Entendi. É uma questão de referencial.
— Obviamente. É o “sumir” que pode também significar “aparecer”.
— Às vezes a informação não está exatamente onde deveria.
— E assim todas as nossas relações continuam banhadas por hipocrisia.

O aluno pareceu perplexo:
— Professor, achei que tivéssemos mudado de assunto.
— Mas nós mudamos, oras.
O aluno esfregou os olhos por debaixo dos óculos para disfarçar.
— E aquela parte da matéria sobre o ócio, professor?
— Essa é simples. É o entendimento de que, ao se desocupar o corpo e a mente, o leque de possibilidades de ação do ser humano passa de limitado a infinito.
— Bonita essa história. E qual a ideia central do texto que fala da mulher perfeita?
— Nada muito complicado. Sério. O autor cria um modelo de mulher como se juntasse em uma só pessoa os melhores braços, o rosto mais delicado, e assim por diante. E chega à conclusão de que a montagem mais pareceria uma colcha de retalhos.
 

Lógica. Ou a falta dela.

 

O aluno parecia otimista. Estava contente por demonstrar interesse pela matéria e ainda tirar algumas dúvidas. No entanto, aconteceu algo que o obrigou a encontrar um jeito de encerrar a conversa. Seu celular vibrou, com novíssimas mensagens na caixa de entrada. Essa fixação pelo telefone já tinha se tornado até motivo de piada. Secretamente, os colegas de classe o chamavam de “blequibéri”.

— Professor, muito obrigado. Acredito que já estou com uma boa noção da matéria – e já fez menção de sair, ajeitando a mochila nas costas.
 — Está mesmo, meu jovem. Fique tranquilo. Apesar de a aula ter sido de Lógica, e não de Filosofia, você mostrou que está muito bem na argumentação. Se sobrar alguma dúvida sobre o conteúdo, aparece em casa um dia desses!


Ponto Final?

19/01/2011

Este texto foi  publicado na Revista Emdá do segundo semestre de 2010.

***

“Você me ama?”. “Estou largando o vício.” “O quê?”. “Nada que uma boa noite de sono não resolva…”

O Rapaz estava parado em pé, contraído, tentando aquecer-se com um simples esfregar de mãos e um fino cachecol. A brisa gelada do fim de tarde paulistano, misturada com um adocicado aroma de pipoca, parecia penetrar seus poros sem nenhuma piedade. O alaranjado sol poente contrastava com o cinza predominante na paisagem. O domingo ia terminando e, com ele, muitas das crenças humanas. O Rapaz tivera que trabalhar durante todo aquele dia, mas, como gostava de dizer, o trabalho “redime o homem”. Agora, esperava pelo ônibus. Enquanto isso, a Moça estava sentada no chão, encostada em uma vitrine. Não se incomodava em acompanhar o seu namorado – o Rapaz – em uma tarde de trabalho. O que lhe importava era a sua simples companhia física.

A Vila da Esperança não era o lugar mais belo da Zona Leste de São Paulo naqueles anos 1970. Anos que, ressalte-se, não estavam nada fáceis. O Médici matando a torto e a direito, a Seleção sem um ponta-esquerda decente, o irmão preso e duas sobrinhas para alimentar. O Rapaz mantinha-se estático na extremidade da calçada, enquanto concentrava-se e perdia-se em sua espera pelo ônibus. Tudo o que queria era que ele chegasse logo. Mal podia esperar para ver o enorme letreiro com a inscrição em letras verdes: “Paraíso”. São Paulo já era grande, mas a viagem não seria das mais longas. Ao chegar, iria ver a mãe, de quem sentia saudades, tomaria um caldo quente daqueles que levantam qualquer peão, daria um abraço gostoso nas meninas e dormiria o sono dos anjos.

A Moça não se entusiasmava muito com a ideia de ir até o Paraíso. Para ela, a viagem seria muito demorada e o coletivo, com certeza, chegaria lotado. Ficaria satisfeita com uma pensão na Bela Vista ou um quartinho na Liberdade. Nunca tinha ido de fato a Liberdade, mas gostava de como o Rapaz lhe falava dela, e ele o fazia de uma forma romântica e idealizada, que lhe aquietava as aflições cotidianas. A espera pelo ônibus já estava cansando-a. Por baixo do gorro, levantou os olhos e disse: “Amor, esquece. Amanhã nós vamos. Deixa a noite de hoje para o nosso dolce far niente”.

O Rapaz nem se virou para responder. Soltou um riso abafado pelo cachecol e tentou se conformar. Ela ainda não havia largado a mania de, para mostrar-se culta, repetir a meia-dúzia de palavras em italiano que aprendera com a avó. Ele gostava da pureza dela e admirava aquele jeito ingênuo de olhar para o mundo. Sentia por ela o que decidira chamar de amor. Um sentimento sem forma e nem cor. Sem palavra, rima ou poesia que exprimisse seu valor. Uma afeição que, ao se dizer indescritível, se descreve.

De repente, ele se deu conta de como fora teimoso. Seus amigos já haviam lhe advertido que o transporte público rareava aos domingos e que o coletivo para o Paraíso possuía uma trajetória errante, dependendo das determinações da Prefeitura a cada semana. “Porém”, pensou, “quanto mais tempo eu espero pelo ônibus, menos terei de esperar”. Riu-se da obviedade. Percebeu que o relógio de pulso parara de funcionar. Mas o que é uma obviedade nesse mundo onde as pessoas trocam as coisas mais fundamentais por alguns segundos de deleite?

“Amore, stanco di aspettare. Andiamo!”. Os anéis afivelados ao tênis reluziam. Os jeans rasgados e desbotados atritavam-se contra a calçada irregular. Era o último raio de sol permitido para aquele dia.
 

Já que o ônibus não chegava, o Rapaz afundava-se em pensamentos – necessários, mas inúteis. Aquele ócio obrigatório o fez pensar. Sentiu raiva de sua rotina circular. De repente, perguntas começaram a invadir sua mente desocupada. É possível odiar o amor? Por que uma pessoa pode matar a outra, ou se matar por outra? O que é que nos determina? O material genético, o nome, a alimentação, a data de nascimento, as experiências na primeira infância? O que diferencia um grupo de um amontoado de pessoas? Por que fazemos de nossas atitudes uma colcha de retalhos? Quem atribui ao homem o direito de educar, de interferir e de ferir? A vida é uma simples espera pela morte? Por que o homem impõe a si mesmo as mais duras convenções e vive segundo elas? Por que os adultos param de sonhar? Por que chamamos de “Vossa Senhoria” quem deveria ser “Vossa Ironia”? Há quanto tempo esperava o ônibus? Perdeu a noção das horas.

Riu-se novamente. Esperar pelo ônibus estava sendo mais produtivo que as aulas de alguns mestres da escola. Ele aguardava e ia envelhecendo ao mesmo tempo.

As primeiras estrelas já encontravam seus lugares no céu. A Moça levantou-se, agarrou a mochila esfarrapada, atravessou sorrateiramente a calçada vazia, aproximou-se do ouvido do Rapaz e sussurrou, sem saber o que dizer: “Querido, já chega. Eu vou embora. Este é o seu problema. Chega de esperar, olha nos meus olhos! Cansei”. Desistiu de tentar articular as palavras, que desta vez não estavam decoradas. Virou-se para o nada e deixou derramar um último acorde. “Só saiba que eu admiro o teu jeito enigmático de olhar para o mundo”. E saiu andando.

Tudo bem. Ela nunca entenderia. Ele não se importava mais. Com um sorriso triste no canto da boca e o olhar fixo de sempre, esperava com fé o ônibus que o levaria ao Paraíso. Chegaria cedo ou tarde, mas chegaria. E quando ele chegasse, o Rapaz correria para tomar um caldo quente de levantar as meninas, dormir o sono dos peões, ver a saudosa mãe e dar um abraço gostoso nos anjos.

Para isso, o Rapaz teria que esperar. E esperou.


Tributo ao Mago

11/01/2011

Ela chega ao seu encontro apressada
Desiludida, maltratada.
Mas ele a recebe com festa
Ela é só dele, e não se empresta.

O traje não é de gala,
O tapete não é vermelho,
A dança não segue a escala
O corpo redondo é desajustado ao espelho

Ele mostra que não se importa,
Desfila a dama com gentileza.
Enquanto observam com surpresa
Na rede, ele a deixa morta

Ele é um homem grato
Não agride; conduz.
Com os adversários não faz trato,
A fria noite, enche de luz.

Mas como no mais trágico tango
Por um dia, ele a abandonou.
Arranjaram-lhe uma dama de ouro
A quem, humilde, ele aceitou.

Apesar da união arranjada,
Todos sabem que ele prefere a outra
Com quem pia, rodopia, surrupia
Que qualquer um espia, mas ninguém copia.

Gênio, craque, mestre
Este é o grande Messi.
Reconhecer o talento do argentino?
Uma obrigação que nenhum brasileiro merece.

***

Parabéns também a Marta, melhor jogadora de futebol de todos os tempos!


Desprogramando

10/01/2011

Em 2º...

O ano começa e todo o mundo parece meio perdido depois uns dias de praia e sol – ou de livros e vestibulares. Mas é possível perceber que nada mudou quando as pessoas deixam os carros em casa e passam a passear de canoas em São Paulo e o Ronaldinho Gaúcho continua distribuindo chapéus. Chapéus de palhaço para homens de cartola.

Chega um momento das férias em que dá pra contar nos dedos as opções do que fazer. Em primeiro lugar, assistir a um bombástico jogo da Copa da Ásia. Em segundo lugar… Bom, o segundo lugar sempre está reservado para o Rubinho Barrichello. Em terceiro lugar, escrever para o blog textos de qualidade digna de um Shakespeare. Não que eu esteja querendo me comparar a Shakespeare! Ele era bem mais magro do que eu.

O tédio paulistano é proporcional à criatividade do povo. A temporada de flash mobs já começou, mas agora passou dos limites. Guerra de travesseiros, tudo bem. Balada dentro de ônibus, beleza. Mas 300 pessoas sem calças no metrô já é demais!

Enfim, devo muito aos amigos que estão na cidade. Alguns já estão pensando em entrar na Justiça para me cobrar.

***

Modelos de férias na cidade:

• Férias repetitivas: aquela do acordar-comer-Facebook-dormir. Entre cada etapa destas, uma pequena rodada de dormir-acordar-comer-Facebook-dormir.
• Férias de morcego: aquela em que os dias começam quando o sol se põe e terminam quando o despertador toca.
• Férias revoltadas: aquela em que a pessoa reconhece que não é legal assistir ao Jornal Hoje todos os dias e admite que existam sim coisas boas para fazer em São Paulo. Pega o carro, vai ao cinema, almoça fora, joga futebol no clube e ainda pega um barzinho à noite (Validade: 5 dias após aberto).

E as férias vão passando rápido mesmo, sem dó. Enquanto nós programamos o ano, as férias vão nos desprogramando.